Carnavalescas
Mais um grande evento para que os famosos de plantão desfilem seus grandes feitos, que em geral resumem-se a corpos malhados, conquistados com suor e dinheiro. Nada contra, até porque se a mídia dá tanta exposição é porque vende, tem público, tem gente interessada em ver essa outra gente.
Entretanto, por essas e outras que eu recomendo, a quem puder, viagens para locais sem carnaval e a quem não puder uma ida ás locadoras. O carnaval dos blocos, das marchinhas, das boas escolas é passado. Não adianta chorar, passou. Quem pode citar um grande samba nos últimos 5 anos? Quem pode citar uma passista marcante, que não seja uma pseudo pop star em papel de sambista de última hora? Díficil senhoras e senhores, muito díficil.
Mas não vamos expor a festa popular como a grande culpada, na realidade ela é a grande vítima do fenomêno "Astros por um dia", resultado da inversão de valores da sociedade moderna. Legal é aparecer, é circular, é ver e ser visto, é ostentar, é mostrar que conquistou mais. Legal por quê? Legal para quem?
O Tempo
Primavera, a estação mais colorida do ano. Rudolph acendeu seu charuto e se dirigiu a varanda para contemplar a vista. Lá do alto, sentia-se um pouco mais dono de si. Sabia que ninguém ia perturbá-lo, e fazia questão de garantir esta condição ao deixar o celular ou qualquer forma de comunicação inacessível. Assim, podia entrar no seu mundo, pensar as questões que só interessavam ao seu ser.
Naquela noite, especificamente, pensava no tempo. Quanto tempo já vivera era uma certeza; quanto ainda tinha por vir era impossível saber. Se o tempo por vezes é um aliado poderoso, em outros momentos, mostra-se um cruel adversário. Conclusivamente, o tempo é o dono do jogo, pois passa sem parar, não adianta implorar, rezar, não tem jeitinho que mude essa verdade universal. Quando o homem chega aos quarenta, o tempo começa a correr contra, pelo menos esse é o pensamento inicial. Talvez, o segredo da vida seja administrar o tempo para que ele esteja sempre a favor. No Oriente, dizem que o melhor a se fazer é viver o tempo presente, evitar o passado e não conjecturar a respeito do futuro. Foco no agora. No Ocidente, o segredo é a anti-contemplação oriental, ou seja, entretenimento, ação, ocupação 100% do tempo. Time is money.
A sensação que Rudolph tinha era de que deveria haver uma terceira via. Algo entre o Ocidente e o Oriente que permitisse um melhor aproveitamento do tempo terrestre. Olhar para trás e contabilizar quantas coisas já tinha vivido era por demais superficial. Parar e simplesmente viver o agora, centrado em si mesmo e na natureza a sua volta, parecia utópico, além de dar uma sensação de desperdício do que havia vivido e dos planos futuros.
Rudolph começou entao a pensar nos animais, nas plantas, nas crianças. Nenhum deles tinha a noção exata de tempo finito, de que tudo acabaria em algum momento. A resposta deveria estar ali. Viver o presente com intensidade, contando com o aprendizado do passado e, no caso das crianças, entusiasmado com as possibilidades futuras. Reunir, portanto, os três tempos e passar a equilibrar as expectativas e a própria vida no que há de melhor em cada um deles.
O charuto já estava no fim, aquele tempo tinha acabado e era hora de entrar.